TRÊS PARADOXOS: OS DIÁRIOS (1933-45) DE VICTOR KLEMPERER[1]

 

 

Ellen Spielmann - Univ. Jena

 

 

Até 1995 Victor Klemperer, judeu-alemão e professor de línguas e literaturas românicas de Dreden, ficou desconhecido. Só um pequeno grupo de alunos dele (já nos seus sessenta/setenta anos) e alguns especialistas estudiosos da época nazista conheciam sua pesquisa sobre o jargão nacional-socialista. Trata-se de uma análise lingüística pioneira intitulada Lingua Tertii Imperii (LTI) – “Linguagem do Terceiro Reich” (publicada em 1947), que ele elaborou durante o nazismo. A condição de desconhecimento total — situação contrária ao reconhecimento do autor de Mimesis, Erich Auerbach — mudou por completo em 1995, quando foram publicados os diários de Victor Klemperer. Eles contam a vida de um judeu alemão que sobreviveu ao holocausto na Alemanha nazista.

À publicação em alemão, de 1995, seguiram logo traduções em inglês, português, em 1999 pela editora paulista Companhia das Letras, antes até da publicação na França. A atenção pública da crítica internacional – a mídia, a imprensa (saíram críticas longas, por exemplo, no New York Times, The Times, no Le Monde, na Quinzaine littéraire, pelo escritor Georges-Arthur Goldschmirdt), até na televisão entraram – e o sucesso de vendas foi tão grande que a TV alemã resolveu produzir uma minissérie de doze capítulos, que foi ao ar em outubro e novembro de 1999. Além disso, publicou-se na Alemanha um áudio-livro de seis CD’s com 330 minutos duração de leitura, logo seguido de uma biografia em fotos, como também os diários da infância, entre outros livros. Como se explica este fenômeno? Como explicar o interesse surgido de repente? Tudo isso depois de cinqüenta anos?

Há três paradoxos principais – a meu ver – no caso de Victor Klemperer, os quais me servem para uma leitura dos diários de 1933 a 1945. Começamos por perguntar: Quem é Victor Klemperer? Encontramos o primeiro paradoxo: Victor Klemperer é um homem que escreve para viver e vive para escrever. Segundo paradoxo: Victor Klemperer é um judeu alemão que sobrevive e testemunha clandestinamente o tempo do Terceiro Reich. Além disso, e aí vemos a condição paradoxal: ele crê e confia na pátria alemã e no Estado alemão. A citação seguinte nos permite distinguir entre o primeiro e o segundo paradoxo:

Meu diário foi para mim durante estes anos todos o fiel da balança sem o qual eu teria sucumbido mil vezes. Nas horas da repugnância e de desespero, na esterilidade infinita do mecânico trabalho na fábrica, junto a leitos de doentes e moribundos, junto a sepulturas, em momentos de aflição pessoal, de extrema humilhação, com o coração fisicamente doente - esta exigência sempre prestou uma ajuda a mim mesmo: observe, estude grave - amanhã tudo vai ter mudado, amanha vou senti-lo diferente, grave na memória o que ocorre - amanhã tudo será diferente, amanhã você sentirá tudo de maneira diferente, retenha o que se revela justamente agora e exerce influência

 

e, segundo confessa no dia 27 de maio de 1942: Seguirei escrevendo. Este é meu heroísmo de querer prestar testemunho, e testemunho exato. As duas citações mostram claramente os dois paradoxos. O terceiro não salta a vista: são os próprios acontecimentos, as condições da vida cotidiana dos anos de 1933 a 1945, contados nos diários.

O seguinte texto divide-se em três partes cada uma tratará um paradoxo, que procuro analisar.

 

I. “Viver para escrever e escrever para viver’

 

Victor Klemperer começou a escrever diários aos dezessete anos. Os manuscritos da época de nazismo abrangem 5.000 páginas. Interessante e decisivo é que ele vai muito além de um cronista da época. Escreveu obsessivamente. Para Victor Klemperer o ato de escrever foi uma necessidade que chegou a ser uma questão existencial de sobrevivência. Tzvetan Todorov descreve e analisa no seu “Les hommes-récits” (publicado em. Poétique de la prose, Paris Ed. Seuil 1971, p.78-91) a relação direta entre os homens e o ato de narrar: vivem para contar história, para inventar história e assim legitimar sua vida. O conceito da relação mútua entre escrever e viver pode servir para compreender melhor o impacto encontrado nos diários. A metáfora chave para os diários usada por Victor Klemperer é “o fiel da balança”. Ele retém as vivências imediatas na sua escrita. Descreve o que faz, o que lhe é contado e reflete sobre isso. Victor Klemperer escreve seus diários clandestinamente. Cada caderno com as anotações vai ser levado para a casa de uma amiga do casal, a qual mora em outra cidade, onde os cadernos vão ser escondidos.

Finalmente, ele escreveu para quem? O diário não foi escrito com vistas a publicação. Em geral escreve-se diário para os que vêm a posteriori. Victor Klemperer escreveu para si mesmo e para sua mulher. Eva Klemperer era pianista, largou a carreira por causa do marido. O casal não teve filhos, os diários ficaram guardados no arquivo na Saxônia, tiveram que esperar quarenta anos pela descoberta e cinqüenta anos pela publicação.

 

II Judeu-cristão-judeu-cristão-judeu assimilado, quem luta por sua “alemanidade”?

 

Victor Klemperer, filho de um rabino nascido em 1881, na cidade de Landberg (hoje Polônia), converteu-se duas vezes ao protestantismo. A primeira vez na juventude, obedecendo à decisão familiar, e a segunda vez quando se casou com uma alemã protestante. Foi esse casamento, aliado ao fato de ter sido soldado voluntário e condecorado na Primeira Guerra Mundial, que lhe salvou a vida. Considerou-se alemão, patriota, liberal, nacionalista, convencido dos valores nacionais-germânicos. Victor Klemperer anota no 10 de março de 1933: 30 de janeiro: Hitler chanceler e continua: No domingo votei no candidato dos democratas...De brincadeira...usei minha cruz-do-mérito (a condecorado). E logo depois do terror permanente nas ruas, confessa no 30 de março: De fato, sinto mais vergonha do que medo, vergonha pela Alemanha. Verdadeiramente, sempre me senti alemão. Mesmo sendo atingido pelo programa anti-semita em 1933, ele procurou não aceitar as mudanças graves, mantinha postura mesmo sendo discriminado, confrontado pelos bancos vazios na Universidade de Dresden. Grande número de alunos resolveu, logo em 1933, não assistir as aulas de professores judeus. A reação de Victor Klemperer: ele presta “juramento ao Führer”. Demitido da cátedra de Romanística na Universidade de Dresden em 1935, onde ele foi professor titular desde 1920. Ainda demora por muito tempo, exatamente até o mês de julho de 1937, para ele pôr em questão seu patriotismo e a fé nacional. Anota Victor Klemperer no dia 13 de julho de 1937, reconhecendo o “novo espírito“: Talvez o hitlerismo esteja mais arraigado no povo alemão e seja realmente parte e característica da natureza e do espírito alemão do que eu quero acreditar.

Ele passa uma vida na corda bamba: vive entre os extremos, entre o estado de aflição e de idílio, entre as chicanas e o banal, vive a condição de ameaça, de destruição e mesmo assim assume uma postura de certa indiferença, continua lutar por sua “alemanidade”. Ele é o não-herói por excelência - judeu assimilado pertencendo à burguesia intelectual.

 

III     Os próprios diários

 

A grande importância dos diários vem, em primeiro lugar, por testemunharem a trajetória dos judeus na Alemanha nazista desde a perda de direitos civis até a deportação e o holocausto e, em segundo lugar - e isso é mais importante ainda -, por fazerem e formularem observações exatas do dia-a-dia entre 1933 e 1945. Victor Klemperer conta passo a passo o que aconteceu e desmente assim que a população não tivesse conhecimento de permanentes chicanas, humilhações e ameaças, e de certas crueldades incluindo as atrocidades de Ausschwitz.

Victor Klemperer escreve comentando o sadismo burocrático das leis contra judeus no dia 31 de março de 1933: Assassina-se friamente ou “lentamente” deixa-se morrer de fome e, continua, Em Munique (onde ele formou-se e fez doutorado) professores universitários judeus já foram impedidos de pôr pé na universidade. Em 1935 ele mesmo está expulso do cargo na Universidade de Dresden sem protesto por parte dos colegas. O interessante desses diários é que Victor Klemperer descreve um cotidiano multifacetado, cheio de contradições e paradoxos, ultrapassando assim o imaginário dos que não conviveram a época. Em 1935, ele pensa pela primeira vez em emigrar finalmente acaba não fazendo. Porque? O casamento mixto impedi ele ganhar um bom lugar na lista de espera na embaixada norte-americana. No mesmo ano o casal resolve comprar um carro para passear. Anota ele no 12 de julho de 1938: No domingo, um passeio pela margem direita do Elbe até Meissen. Ali, pela primeira vez, a nova estrada ao longo do Elba fora da cidade, sob o castelo. Estes passeios são momentos de liberdade e felicidade, até ficar proibido a judeus dirigirem carro, a partir de 1939.

Desde 1938 judeus foram impedidos de freqüentar bibliotecas. Para o filólogo isso significa o fim das atividades acadêmicas. Victor Klemperer continua a trabalhar em casa, sua esposa Eva arranja livros em bibliotecas circulantes. Segundo os decretos, a partir de 1939 também fica proibido ir ao cinema, ao teatro e assistir concertos. São os fatos paradoxais comentados pelo Klemperer, os quais importam e levam a máxima autenticidade. Prestamos atenção ao seguinte comentário sobre os pogroms no dia 9 de novembro de 1938, os quais Victor Klemperer comenta na véspera do Ano Novo de 1939: Creio que os pogroms de 1938 causaram menos impressão no povo que o corte do tablete de chocolate no Natal. Em Maio de 1940 o casal é obrigado a mudar-se para a “casa de judeus” onde convivem apartados. Victor Klemperer a compara com o Campo de concentração de alto nível, como escreve no dia 6 de junho de 1940. A reação dele às humilhações é por um lado a estratégia de recolher-se em casa. Escreve ele: Saio para rua só nos casos urgentes. Quando se torna obrigatório o uso da estrela-de-davi – “a estrela de judeu” (o “Judenstern”) Victor Klemperer reage, por outro lado, com um acesso de raiva e desespero. O seguinte comentário paradoxal mostra bem o dilema do estado de ser: Eu sou alemão os outros não pois o que é decisivo é o espírito não o sangue. Em outubro de 1941, quando lhe retiram a máquina de escrever, Victor Klemperer fica todo magoado e entra numa depressão profunda. Sucedem a invasão das tropas alemães no território russo e a declaração alemã de Guerra aos Estados Unidos da América. Adolf Hitler anuncia a “Gesamtloesung der Judenfrage’, quer dizer, o extermínio dos judeus. Dia 9 de novembro de 1941 Victor Klemperer anota: As deportações para a Polônia prosseguem, por toda parte, grande depressão entre os judeus e continua: as notícias ...surgem de varias partes...relatos orais. Ouvimos muitas coisas. Em 1942 há indicações claras sobre deportações para Theresienstadt (campo de concentração e extermínio), e pela primeira vez Victor Klemperer ouve sobre as atrocidades do campo de extermínio de Ausschwitz. Em 1942 ele registra 31 decretos de proibições; entre outras, fica proibido comprar lâminas para fazer barba, a compra de flores, de jornal, andar no ônibus, usar telefone público, criar animais.

O bombardeamento e a destruição de Dresden em fevereiro de 1945 significou a salvação para ele e sua mulher. Na situação de caos, os nazistas perdem o controle sobre a cidade, fato que abre o caminho para fugirem da casa com a estrela amarela arrancada. O casal foge da cidade em direção a sul. Consegue refugiar-se numa aldeia na Baviera, onde esperam a invasão das tropas americanas.

Na primeira anotação dos diários do dia 14 de janeiro de 1933, Victor Klemperer tem 51 anos. A final data do 10 de junho de 1945, quando ele volta a cidade destruída de Dresden, Victor Klemperer tem 63 anos.

“Escrever para viver” parece ser a razão final dos diários: escrevê-los pode haver sido uma forma para saldar o trauma. Neste sentid, o texto inscreve-se no modelo literário dos diários. Porém os diários dele destacam-se porque incorporam três paradoxos, assim como vão muito além das crônicas existentes sobre a época.

Fechando esta parte do meu trabalho sobre Victor Klemperer, queria referir-me à vida dele no socialismo da posterior República Democrática da Alemanha. Logo em 1945 ele tinha ingressado ao Partido Comunista Alemão, apesar das convicções liberais dele, que se manifestaram nas reflexões equiparando o regime russo comunista com o alemão nazista. Victor Klemperer voltou a cátedra em Dresden, depois lecionou também em Greifswald, tornou-se professor titular em Halle e Berlim. Ele levava uma vida relativamente privilegiada - podia comprar um carro, podia viajar ao exterior - mas sem destaque. Ficou membro da Academia das Ciências e representante da Associação Cultural na Câmara Popular. Nesta função votou, por exemplo, a favor da pena de morte e, além disso, não hesitou aceitar o convite oficial para fazer um discurso longo, em público, a favor da pena de morte.

Fritz Rudolf Fries, escritor alemão de Berlim, está certo quando observa sobre as manifestações de Victor Klemperer durante esses anos divididos entre Dresden, Greifswald, Halle e Berlim, numa resenha publicada na Sueddeutsche Zeitung no 26/27 de agosto de 1995: Infelizmente, não encontramos depoimentos significativos desses anos nos diários os quais comparam-se com as do cronista dos anos 1993 a 1945. Resta perguntar: Porque os diários não foram publicados na RDA? É bem provável que as descrições de Victor Klemperer sobre o dia-a-dia incluindo comentários tanto a favor quanto contra o comportamento de operários, pequenos burgueses, a burguesia perante o nazismo e o anti-semitismo não combinariam bem com a linha do novo governo socialista.

 



[1] O seguinte texto é parte de um trabalho maior sobre Victor Klemperer, judeu alemão, filólogo-romanista e escritor de diários.